sábado, 6 de novembro de 2010

Morte ou Glória

Não acredito em construções/investimentos nas relações. Ou é amor fulminante e recíproco à primeira vista, paixão que rasga os sentidos e nos tolda a razão, ou então estará condenada a ser um fiasco total, desde o início.
Comigo, ou é tudo ou nada. Não há meios-termos, relações complicadas, relações abertas, relações incertas quanto ao seu futuro. Tudo isso são relações de merda, destinadas ao falhanço absoluto e inexorável.
Por mais cliché que isto possa soar, mais vale mesmo estar só que mal acompanhado. E, muito sinceramente, acredito que as pessoas que se deixam imiscuir nessas teias de decadência amorosa fazem-no somente por medo de ficarem sozinhas. A miséria adora companhia, e não é do nada que frequentemente se diz "estão muito bem um para o outro".
Mas não estão. Estão a lacerar a alma um do outro num processo de destruição extremamente lento e doloroso. Estão a adiar o inevitável e a desperdiçar valiosas oportunidades de se envolverem com outras pessoas com quem poderiam ser muito mais compatíveis e felizes. A companhia dos amigos, de quem dizem não abdicar por nada, também seria algo a considerar como alternativa mais que viável.
Manter-me-ei apologista desta minha filosofia de vida, por mais desesperantes que sejam os tempos. Continuo à tua espera, e tu à minha.
"O amor é fodido", mas é preferível que nos foda apenas uma/duas/três vezes na vida que foder-nos praticamente todos os dias, por tempo indeterminado. Been there, done that. Não, obrigado.

Paz,

Ricardo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Loop

Daniel acorda exausto, após mais uma noite carregada de insónias. Entorpecimento mental irreversível? Provavelmente não, apenas mais um capítulo numa fase deprimente da sua vida, cujo prolongamento parece não cessar.
Minutos antes de despertar, encontrava-se imerso num sonho profundo, subliminarmente envolvido por um manto negro, uma enigmática fumaça capaz de exercer sobre si um poder hipnótico.
Totalmente entregue, Daniel era invadido por um turbilhão paradoxal de emoções, ora terrificado, como que pressentindo uma ameaça iminente, ora fascinado e deslumbrado por esta fumaça. Pelo topo de um farol, pelo cume de uma montanha, por um templo secreto que a erosão do tempo fez questão de esconder ou por uma modesta e rústica igreja, dotada de uma acústica natural sem precedentes, o seu corpo e espírito, numa simbiose perfeita, viajavam à velocidade da luz.
Conduzido pela fumaça nesta viagem astral, acaba, no entanto, por finalmente assentar numa rua qualquer de uma grande metrópole, sendo imediatamente bombardeado com todo o caos citadino inerente a um cenário destes. Observa um colossal relógio digital na rua que marca 18:23h. É hora de ponta. Os buzinões penetram-lhe o cérebro como berbequins; os outdoors, com cores berrantes, ostentam fotografias que parecem querer engoli-lo vivo; as conversas cruzadas ao telemóvel em cada esquina irritam-lhe solenemente; os quiosques vendem jornais e revistas que só perpetuam calúnias e miséria. Toda esta artificialidade, aliada à poluição, às ratazanas que se escondem por entre as sarjetas e, sobretudo, à futilidade e automatismo das pessoas que o rodeiam, asfixia Daniel, ao ponto de desejar entrar em coma profundo e não mais voltar a enfrentar este mundo para o qual não foi talhado.
É então que desperta deste longo sonho. O caos citadino já não o incomoda. É como se um alter-ego seu tivesse ficado para trás. À sua direita, na mesa de cabeceira, contempla o logótipo da Pfizer, impresso numa caixa de ansiolíticos. Enquanto pensa nas doses industriais de químicos que o seu organismo já absorveu ao longo da vida, a sua mente dispersa-se por breves instantes. Toma mais um comprimido e, em poucos minutos, volta a adormecer. Fumaça? Viagens astrais? Não necessariamente. É apenas o recomeço de um ciclo incessante.

Texto já com alguns meses de idade. Tentativa de aplicação de elementos de semiótica.

domingo, 20 de junho de 2010

Ode ao Ódio

Odeio-te. Visceral, silenciosa e obsessivamente.
A ti, porque me traíste. A ti, porque me mentiste e me fizeste passar por um tonto. A ti, porque não te entregaste incondicionalmente a mim. A ti, porque me tentas impingir a tua filosofia de vida, quando já devias ter percebido há muito que não vale a pena. A ti, por seres manipulador ao aproveitares-te das fraquezas dos outros. A ti, por seres ridiculamente insistente e não me deixares em paz, quando eu só quero mesmo é estar sozinho. A ti, por achares que temos sempre algo a provar.
A ti, por seres tão preconceituoso. A ti, por seres demasiado ingénuo. A ti, por seres tão conservador. A ti, por seres demasiado progressista. A ti, por seres tão intolerante. A ti, por seres demasiado permissivo. A ti, por seres tão imaturo. A ti, por seres demasiado maduro.
A ti, por seres fútil. A ti, por seres inútil. A ti, por seres arrogante. A ti, por seres banal. A ti, por seres obtuso. A ti, por seres fundamentalista. A ti, por seres moralista. A ti, por seres hipócrita. E também a ti, por seres tão diferente de mim.
Contudo, fundamentalmente, odeio-me. "Penso que penso e fico a ouvir-me a pensar. Estou farto de mim".

Manifesto

Há anos que me sentia compelido a criar um blog. Porquê só agora? Pela mesma razão que dita muitas das minhas acções: por espontaneidade.
Não me parece, muito honestamente, que venha a encarar este espaço como um refúgio emocional, ou até mesmo, no seu sentido mais convencional, como um diário passível de assinaláveis registos da minha (in)actividade existencial.
Encaro-o sim como apenas mais um escape ocasional, a juntar a muitos outros que preenchem os meus dias, semanas, anos. Não será com certeza um reflexo de tudo o que sou e penso, não versará somente questões pessoais, mas também incursões por domínios abstractos, demasiado ousados e fantasiosos para se reportarem exclusivamente à minha pessoa e a tudo o que a ela está inerente.
É, como o próprio título indica, um fluxo de consciência, um veículo para a transcrição e exposição de monólogos diversos, em que os moldes espacio-temporais serão abolidos, actuando como uma extensão da inconformidade que me caracteriza.
Assim, a escrita será muitas vezes algo entrópica, razão pela qual não espero muitos seguidores verdadeiramente interessados. A quem tiver paciência para me acompanhar, agradeço desde já. Se alguém se identificar com algumas das minhas deambulações, melhor ainda.
Sem mais pretensiosismos,
Ricardo.